A Casa do Lago
Teatro Municipal Baltazar Dias | 2000
Teatro Politeama | 2000
Teatro Rivoli | Dez.2009
"A Casa do Lago" é uma peça de Ernest Thompson, autor americano, amigo e discípulo de Tennessee Williams, guionista de cinema vencedor de Óscares, que aqui aborda o tema difícil da terceira idade e das relações entre os casais que tendem, perdido o fulgor dos verdes anos, a digladiarem-se diariamente num duelo de manias, teimas, casmurrices e caturrices, que mais não são do que o descarregar um no outro de toda a animosidade contra a vida que vai correndo rápida demais para as suas pernas velhas e cansadas.
A casa à beira do lago, lugar idílico, outrora recanto de sonho para fugir ao stress do dia a dia, é agora uma casa que acusa a idade tanto como eles e onde o tempo se arrasta. O lugar continua idílico, eles é que já não… até as circunstâncias revelarem que, afinal, haverá sempre alguém para quem "a casa do lago" continuará a ser refúgio e reencontro.
Este texto tem sido levado a cena em incontáveis palcos em todo o mundo e foi interpretado por nomes como Jean Marais e Edwige Feuillère em Paris, Paulo Gracindo e Natália Timberg no Rio de Janeiro, Simone Valere e Jean Desailly, entre muitos, muitos outros...
Teatro Politeama - Ano de 2000

Com "Casa do Lago", Filipe La Féria reuniu no palco do Teatro Politeama dois nomes maiores do Teatro nacional: Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho, numa exibição de mestria na arte de representar e de cativar audiências com a extraordinária simplicidade do talento.
A plateia encheu noite após noite com um público ávido de os ver e de os aplaudir de pé entusiasticamente.
Ao seu lado estavam Pedro Lima, Maria de Lima, Luiz Zagalo e Gustavo Gaspar ou João Queiroga.
Teatro Rivoli - Ano de 2009
Nove anos depois, La Féria trouxe ao palco "A Casa do Lago", desta vez no Teatro Rivoli, e igualmente com dois dos grandes actores do teatro português: Manuela Maria e Joaquim Rosa.
Ao seu lado, um grupo de jovens actores do Porto, como Paula Sá, Bruno Galvão, Jorge Pereira e os pequenos: Gonçalo Ferreira e Guilherme Cardoso.
Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho
Foi uma das primeiras vezes que fui ao Teatro. Talvez tivesse 12 anos. Fiquei numa frisa do Teatro Trindade. Lembro-me da entrada em cena de Viola e da profunda emoção que senti ao ver aquela Actriz de voz estranha e de grandes olhos que eu sabia ser do Alentejo e que já tinha visto em fotografias no Século Ilustrado, de cabelo rapado para interpretar Joana D'Arc. Ali era Viola que se fazia passar por seu irmão Sebastião, um jovem e iluminado Actor. "Um só rosto, uma Voz, o mesmo traje para duas pessoas". Foi nessa "Noite de Reis" de Mestre Ribeirinho que vi pela primeira vez Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho nesses dois irmãos que pareciam um só. "Eu não sou o que sou", declarava Viola revelando todo o paradoxo do Actor. Desde essa noite iria segui-los, como deslumbrado espectador, ao longo dos seus percursos até descerem do palco e pertencerem à minha vida.
Se Eunice para mim foi sempre a Actriz mais genial e completa que vi em Portugal, Ruy de Carvalho é o grande Comediante que desde as comédias e musicais com Laura Alves, ao inesquecível Teatro Moderno de Lisboa, e a consagração em Rei Lear se tornou, como Actor e Cidadão, no melhor exemplo de talento, seriedade e coragem do Teatro Português neste princípio de século. Nunca esquecerei a sua generosidade e entusiasmo na construção deste renovado Teatro Politeama em que foi o primeiro de todos nós a entrar em cena, dando, com o seu prestigio e enorme saber, credibilidade a este projecto que reconciliou o grande público com Teatro de qualidade. Também nos momentos mais difíceis Ruy de Carvalho esteve sempre presente, profundamente humano e amigo como só um grande Senhor Actor pode ser.
Foi sobretudo a admiração por Eunice e pelo Ruy que me fez apaixonar por esta "Casa do Lago", clássico do cinema que foi apaixonando por esse mundo fora grandes Actores de Teatro como Jean Marais, Edwige Feuillére em Paris, Paulo Gracindo e Natália Timberg no Rio de Janeiro, Simone Valere e Jean Desailly... todos eles interpretes desta fascinante "Noite de Reis" que como a humaníssima comédia de Shakespeare proporciona aos deuses do palco a chuva e o vento de todos os dias. E como o eterno Mestre nos aconselha, no seu pungente epilogo da sua mais perfeita comédia "esta peça será de novo encenada no dia seguinte"
Filipe La Féria
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Do teatro ao cinema, de novo ao palco.
Em 1982, na distribuição dos "Oscars" referentes ao ano anterior, um dos títulos em destaque vinha com dez nomeações e arrecadou três das principais estatuetas: melhor actor principal (Henry Fonda), melhor actriz principal (Katherine Hepburn, vencedora do quarto "Oscar", record ainda na sua posse), e melhor argumento adaptado (Ernest Thompson, o dramaturgo, autor da peça que servia de base ao filme). Mas "A Casa do Lago" ("On Golden Pond") fora ainda nomeada para "melhor filme do ano" (o produtor Bruce Gilbert) "melhor realizador" (Mark Rydel), melhor actriz em papel "secundário" (Jane Fonda), "melhor direcção de fotografia" (Billy Williams), "melhor montagem" (Robert L. Wolfe), "melhor partitura musical original" (Dave Grusin), e "melhor som" (Richard Portman e David M. Ronne). Para lá dos Oscars, o filme arrebatou ainda diversos outros prémios, nomeadamente nos Globos de Ouro.
Henry Fonda, então já no fim da vida (viria a falecer, com 76 anos, poucos meses depois de receber o "Oscar"), arrebatou finalmente uma estatueta que lhe vinha a fugir há várias décadas (apesar de já ter sido galardoado com o "Oscar" honorífico em 1981), ao lado de Katherine Hepburn, triunfo de dois veteranos num trabalho que parece ter sido idealizado a pensar neles. Curiosamente, tinham sido James Stewart e Claudette Colbert os actores inicialmente pensados para interpretarem os papeis que viriam a caber em sorte a Fonda e Hepburn, e esta distribuição acabaria por funcionar um pouco como "psico drama" familiar, já que o conflito da peça e a sua resolução final teriam consequências na própria existência dos actores: Henry Fonda e Jane Fonda reencontram-se no estúdio (por interferência de Katherine Hepburn) e reconciliam-se durante a rodagem, depois de alguns anos de tensão que os havia afastado.
Portugal também tem os seus Henry Fondas e Katherines Hepburnes e em boa hora Filipe La Féria se lembrou desta "casa à beira do lago" para nos trazer de volta Ruy de Carvalho e Eunice Muñoz. Quem tem consigo o vídeo ou o DVD do filme pode agora comparar o talento e sentir-se reconfortado por saber que nos nossos palcos há gente que pode ombrear com os maiores mitos da arte de representar internacional.
É um prazer assistir a este dueto de "magníficos", bem acompanhados pela "família" que os rodeia, numa encenação que sabe sublinhar o essencial e recriar um espectáculo que vale ainda pela vivacidade do diálogo, pela beleza do cenário, pelo ritmo da representação. Afinal não é só nos palcos da Broadway ou de Londres que o teatro se afirma uma arte imortal e digna do Olimpo.
Lauro António
Sobre o Autor: Ernest Thompson
"A Casa do Lago" (On Golden Pond) foi a sua primeira peça, que escreveu aos trinta anos, após uma carreira como actor, e que adaptou ao cinema num filme com Katharine Hepburn e Henry Fonda.
Por este filme ganhou o Óscar do melhor argumento.
Além de "A Casa do Lago" escreveu várias peças como "West Side Waltz" (1969), "Take Me Home Again", tendo como intérpretes grandes actores como Shirley MacLaine ou Danielle Darrieux que presentemente estão em cena com textos de Ernest Thompson.