Filipe La Féria propôs transformar num maravilhoso e mágico espectáculo musical um dos mais belos contos dedicados à Infância da Literatura Portuguesa: A Estrela, de Vergílio Ferreira.
A Estrela integra, desde há algum tempo, o elenco de leituras integrais, como narrativa breve para o estudo dos alunos do Ensino Básico. O conto Vergiliano comparece no programa de 7º ano de Língua Portuguesa, na rubrica conto de autor, em contraposição com o conto tradicional, por natureza anónimo, para leitura "metódica", "orientada" ou "extensiva", consoante opções de planificação docente. "A Estrela" preenche todos os requisitos para integrar os "núcleos de textualidade canónica" do Programa da Língua portuguesa para o Ensino Básico (3º ciclo), pois indica sumariamente algumas orientações de trabalho estilístico-formal sobre a Língua Portuguesa, avalia significados das principais categorias narrativas que estruturam a escrita de Vergílio Ferreira e sugere algumas perspectivas que informam a dimensão metafísicosimbólica deste belo conto. Esteve pois, subjacente ao espectáculo, as inegáveis virtualidades pedagógicas do conto de Vergílio Ferreira como realização linguística, como género narrativo e como espaço simbólico–imaginário, lugar privilegiado da memória e da identidade nacional de um povo e duma cultura.
A magia da Estrela
Em "A Estrela", narra-se a história simples e cativante de Pedro, uma criança de 7 anos que um dia, à meia-noite, sobe ao alto de uma igreja, existente no cimo da Serra da sua aldeia, para roubar uma estrela ímpar. Não era uma estrela qualquer, era simplesmente a estrela mais bonita e brilhante do céu. Porém, o roubo é descoberto por um velho muito velho, e toda a aldeia se revolta contra aquele acto que assim defraudara o património comum. Quando se descobre a verdade, a mãe de Pedro exige que ele reponha a estrela roubada no seu lugar originário. Porém, ao restituir a estrela, Pedro ficará com a sua Estrela para toda Eternidade.
"Um dia, à meia-noite, ele viu-a"
Filipe La Féria recriou A Estrela ,situando-a na sua memória alentejana, tão próxima do autor de Aparição e utilizando a magia do teatro de sombras aliado às novas tecnologias do vídeo e do laser. A música de António Leal valorizou e aproximou dos jovens espectadores o estilo fluente e vivido de Vergílio Ferreira na sua matriz rural e na tradição oralizante do canto popular.
A Estrela distingue os três grandes modos literários: (lírico, narrativo e dramático), universais e acrónicos, motivando os jovens espectadores para a literatura e exploração dos signos e sinais do belo conto de Vergílio Ferreira no seu registo maravilhoso, ficção não-verosímil, regida por um singular pacto narrativo que suspende a lógica racional. Como em "Alice no País das Maravilhas", o jovem espectador atravessa para o outro lado do espelho, suspendendo os princípios de uma lógica empírica e racional, passando a reger-se pelas leis de um mundo de fantasia e de sonho.
A posse da Estrela significa crescimento, busca da própria identidade, conquista de uma nova condição, nascimento para uma outra vida. Pedro, quando rouba a Estrela, assemelha-se a Prometeu, roubando o fogo à roda do Sol. Pedro evoca a figura de Ícaro, que com as suas frágeis asas de cera se aproxima demasiado do Sol. Porém, sonhador e impaciente, ao voar sobre o labirinto em direcção ao Céu, o jovem Ícaro queima as suas asas no fogo do Sol. Nesta bela alegoria, a Estrela é roubada por uma criança, um idoso denuncia o seu desaparecimento e um artista celebra, sentidamente, a maravilhosa lenda duma criança e da sua Estrela.
Vergílio Ferreira (1916 – 1996)
Escritor português, natural de Melo, Gouveia. Passou a maior parte da sua infância com as tias maternas, que lhe contavam histórias maravilhosas. Os seus pais tinham emigrado para os Estados Unidos da América. Aos dez anos de idade ingressou no seminário do Fundão que abandonou em 1932 e daria a origem ao seu romance "Manhã Submersa".
Após deixar o seminário, terminou o curso liceal na Guarda e em 1936 entrou para a Faculdade de Letras de Coimbra, onde se formou em Filologia Clássica em 1940. Em 1940 publica o primeiro romance "O Caminho fica longe" e leccionou em diversos liceus do País: Faro, Bragança e Évora, que deixou profundas marcas em vários romances, principalmente o Alentejo ("Aparição"). A partir de 1959 é professor no liceu Camões, em Lisboa.
Inicialmente ligado ao neo-realismo, evolui a sua obra no sentido duma temática existencialista e de um humanismo trágico. A sua obra é atravessada por uma constante reflexão sobre a condição humana, um constante registo das grandes interrogações do homem, da procura de sentido para as razões essenciais da vida e da morte. É considerado um dos grandes escritores da Língua Portuguesa e o seu conto A Estrela uma belíssima alegoria do acesso do humano ao divino, da mentira à verdade, da sombra à luz, da realidade ao sonho, da vida ao Teatro.
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