A Rainha do Ferro Velho
Teatro Politeama | Jul 2004
Teatro Sá da Bandeira | Mar 2005
Quando Born Yesterday estreou na Broadway, em pleno pós-guerra, os espectadores não acreditavam no que viam e ouviam no palco. Aquela comédia do multimilionário brutamontes e da loira estúpida reconstituía em carne e osso o mundo como um documentário transparente e cruel de actualidades.

Como nas comédias de Aristófanes, Gil Vicente, Shakespeare ou Calderon tratava de coisas públicas e trazia para o palco questões de ética e caminhos de utopia. Born Yesterday nascia num tempo de reconciliação, e com o mesmo idealismo e humor dum filme de Frank Capra ou de George Cukor, é uma comédia obscura que, apesar de estar cheia de boas intenções sobre a maravilha cio homem comum, não teme abordar assuntos tão desconfortáveis como os relacionamentos abusivos e os sinistros jogos do dinheiro e da política. Marilyn Monroe provavelmente casou-se com Arthur Miller quinze minutos depois de ver esta peça.
Born Yesterday é a história da Cinderela das loiras estúpidas, na versão de fìlme negro, a preto e branco, com gangsters mafiosos, manicures e senadores. É fácil no Portugal de hoje identificar as mesmas personagens, ao vivo e a cores, agora com a visibilidade brutal da constante massificação televisiva, as idênticas ambições, os iguais negócios escuros, talvez mais sofisticados e perversos. Numa época de desilusões pareceu-me preciso falar de Democracia, dos seus ideais mais simples, mais belos e mais puros.
A comédia é um género perigoso, o mais amado pelos Actores. O público ri-se porque conhece o erro cómico de quem ignora a regra que toda a gente sabe. A arte da comédia tem os segredos mais complexos e subtis deste nosso ofício. Vive dos tempos, do saber dar ao público as personagens nos seus cambiantes mais opostos, do claro/escuro, como nos ensinaram os comediantes mais antigos.
"Foi para os Actores que fiz esta peça".
Para a grande Laura, e para todos os intérpretes de A Rainha do Ferro-Velho no passado e no presente, para a Maria João Abreu, para o Assis Pacheco, para o José Raposo, para o Paulo Renato, para o João Baião, para a Maria Helena Matos, para a Lurdes Norberto, para o Ruy de Carvalho, para a Manuela Maria, para o Canto e Castro, para o Mário Jacques, para o Armando Cortez - magnífico comediante e primeiro tradutor desta peça para português - para a Rosa Areia, para Henrique Santos, para a Alda Pinto e sobretudo para os mais novos, o Tiago, o Sérgio, os Joaquins, o Bruno e todos que hão-de continuar esta seríssima e humana Arte da Comédia.
Filipe La Féria