Filipe La Feria ponto pt

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Amália
Cine Casino do Funchal | 1999
Teatro Politeama
| Abr.2000
Coliseu do Porto
| 2002
Orleans, Lyon e outras cidades francesas e finalmente o Zenith de Paris
| 2003
Genebra
| 2003
Coliseu de Lisboa
| 2004
Casino Estoril
| Set.2004

Musical de enorme sucesso baseado na biografia de Amália Rodrigues, escrita por Vítor Pavão dos Santos, e encenado por Filipe La Féria. Estreado em dezembro de 1999 no Cine Casino do Funchal.

CartazO espetáculo foi interpretado por Alexandra (no papel principal de Amália adulta), Liana, Isabel Noronha, Carlos Quintas, Mariema, Henrique Feist, Joel Branco, entre outros, reunindo em palco mais de 50 atores e uma orquestra ao vivo. Narrativa teatralizada da vida do ícone do fado, o espetáculo é uma fulgurante combinação de luz, canções e emoção para o grande público.

Depois da estreia na Madeira, o espetáculo estreou em Lisboa, em abril de 2000, no Teatro Politeama, onde se tornou um fenómeno de público, com sessões esgotadas durante mais de dois anos. Por esse motivo, posteriormente, o espetáculo correu o país de Norte a Sul em atuações sucessivas de enorme êxito. Inevitavelmente, acabou por fazer uma digressão internacional que passou por países como França e Suiça.

"...porque é que o Filipe não faz um espectáculo sobre mim?"

Um dia, em Janeiro de 1998, Amália foi ao Politeama ver "Maria Callas". No final do espectáculo, emocionada, desafiou-me: "Gostei muito, mas porque é que o Filipe não faz um espectáculo sobre mim?" Mas eu pouco sei de si, Amália ... "Leia a minha biografia escrita pelo Vítor Pavão dos Santos, encontrará lá a minha maneira de falar ... e depois com a sua fantasia..."

Este breve encontro caiu quase no esquecimento até que o Dr. João Carlos Abreu, Secretário Regional do Turismo e da Cultura da Madeira, me convida para ir ao Funchal. Queria um grande espectáculo para a despedida do milénio em Dezembro de 1999. Falou-me dum musical sobre Churchill que no seu crepúsculo dos deuses tinha passado algum tempo na Madeira ...

Porém, numa viagem à Ribeira Brava, ouvindo na rádio a voz de Amália, propus, de rompante, ao Dr. João Carlos: "E se fizéssemos um musical sobre Amália? João Carlos aderiu logo entusiasmado, e um mês depois encontramo-nos com Amália que, com amaliana ironia, comentou que só ela podia fazer o papel de Amália!..

Quando estava a meio da escrita do 1º acto, a notícia da morte súbita de Amália abalou o País, o que me levou a telefonar para o Dr. João Carlos propondo-lhe abandonar o nosso sonho, ao que o meu querido Amigo discordou de imediato dizendo que "Agora mais do que nunca, temos que fazer uma grande homenagem a Amália Rodrigues".

Recordo-me, com ternura, as noites da Madeira ensaiando no Casino, escrevendo num pequeno hotel, vendo horas e horas de vídeos e filmes. Tínhamos apenas um mês para pormos o espectáculo de pé. Foi um mês intenso, vivido minuto a minuto, trabalhando mais de 18 horas por dia. Foi um espectáculo feito com o coração na boca. Lembro-me do primeiro ensaio em que levantei a marcação. No fim de cada cena todos os actores choravam. A morte tão recente de Amália, o encontro com a sua solidão, a vertigem da morte, a descoberta de um ser humano de excepção, duma inteligência luminosa feita de sensibilidade, percepção e de um talento desmedido que atravessa toda a nossa vida, o destino colectivo do nosso povo e de cada um de nós no que de mais profundo guardamos neste labirinto da saudade de ser português, despertou em todos os interpretes a paixão por Amália.

Foi com amor e com dor que fizemos este espectáculo e com as palavras dos poetas que Amália sabia desvendar, abrindo com a sua voz insondáveis universos, dimensionando, na música marinheira da guitarra, o mais languido e trágico sentimento ocidental.

A noite da estreia ficará para sempre na nossa memória como o reencontro de "Amália" com o seu público na ilha das flores que ela tanto amava. O êxito foi inesperado, multidões logo se precipitaram, em filas intermináveis, para a porta do Casino do Funchal, como meses depois aconteceria durante três anos, ininterruptamente, no Teatro Politeama.

Mais que a encenação, mais que os interpretes ou o espectáculo, creio que o público vem sempre para reencontrar Amália. É Amália que o público vê e aplaude como se assistisse a um milagre. Talvez ao eterno milagre do Teatro.

Depois veio o Porto, a Rua Passos Manuel com o transito interrompido por uma multidão que se apinhava junto ao Coliseu e que durante dois meses esgotou sempre as lotações.

Do Porto seguimos para Orleans, Lyon e outras cidades francesas e finalmente Paris. No Zenith tivemos uma recepção triunfal, com mais de cinquenta mil espectadores em quatro noites inesquecíveis. Como em Genebra onde, no final do espectáculo, o público desenrolou bandeiras portuguesas.

A apresentação do "Amália" em França e na Suíça deu-nos a noção do prestígio e da força que o nome de Amália Rodrigues tem no Mundo, muito além do que os portugueses, com a sua insegura desconfiança, ainda teimam em julgar. Amália, não só nos nossos emigrantes, mas sobretudo nos próprios franceses, permanece como uma inultrapassável Diva a que a saudade deu a dimensão de Mito.

Após Paris "Amália" voltou ao Coliseu de Lisboa, o palco onde Amália mais gostava de cantar e o milagre repetiu-se. O mesmo aconteceu finalmente, no Casino Estoril, onde Amália tanto gostava de "passar o ano a cantar" nos históricos "Reveillons" do Casino, lugar que ficará para sempre iluminado pela luz e pela voz de Amália, rosto e alma da nossa História, a mais profunda dor do nosso Fado.
Filipe La Féria


Amália e o Estoril

No dia 12 de Maio de 1949, todos os grandes jornais de Lisboa anunciavam, com foros de sensação, que, nessa noite, Amália Rodrigues ia cantar, pela primeira vez, no Casino Estoril. E o anúncio do Casino acrescentava orgulhosamente: "e agora todas as quintas-feiras."

Neste ano de 1949, o ano em que Amália fez 29 anos, a sua carreira era já tão esplendorosa como não se conhecia outra em Portugal. Mas nem o mais apaixonado amalista suspeitaria do que de grandioso estava para acontecer.

Amália não era ainda, como daí a poucos anos o Variety proclamaria, uma das cinco maiores cantoras do mundo, mas era, desde há muito, a maior cantora portuguesa, e Portugal inteiro sabia de cor as suas cantigas, sobretudo as grandes músicas de Frederico Valério, e corria a vê-la, onde quer que cantasse, para poderem dizer que tinham visto a Amália Rodrigues cantar em pessoa, ao menos uma vez na vida.

Há dois anos, Amália aparecera em Se Aquilo Que A Gente Sente, um êxito de meses no palco do Variedades, que marcaria o final da sua participação no teatro ligeiro, em revistas e operetas, iniciada em 1940. Mas, embora longe do teatro popular, conquistara um público muitíssimo mais vasto no cinema, onde teve, a partir de 1947, dois êxitos fenomenais, que quebraram todos os recordes de permanência em exibição. Primeiro Capas Negras, e, logo a seguir, Fado. História d'Uma Cantadeira, de Perdigão Queiroga, um dos três ou quatro melhores filmes portugueses de sempre, em que Amália tem uma interpretação notável de verdade e frescura, que lhe valeu o prémio de melhor actriz de cinema de 1947, interpretação que, com o tempo, tem ganho uma mais profunda intensidade.

É um fenómeno idêntico àquele dos admiradores de Carlos Gardel, que, depois de terem assistido dezenas de vezes aos seus filmes, declaram à saída dos cinemas: "Hoje, Carlitos cantou melhor que nunca."

Em 1949, Amália apareceu em dois filmes muito diferentes. Sol e Touros, onde apenas canta um fado, e Vendaval Maravilhoso, um grande drama histórico, passado no Brasil, realizado por Leitão de Barros, onde Amália, de modo admirável, interpreta a figura da actriz Eugénia Câmara, com fogosa paixão e depois amargurada revolta. Um filme que, na época, foi um fracasso, mas bem merecia ser revisto e reavaliado.

Nesse ano, continuavam a passar nos cinemas, as curta-metragens realizadas em Madrid, por Augusto Fraga, em 1947. Por exemplo, em 30 de Novembro, acompanhando o filme A Fera de Kumaon, com Sabu, foi exibida aquela em que Amália canta Confesso. Quem sabe onde parará?

Um facto muito importante neste ano de 1949, foi o imenso sucesso que Amália alcançou em Paris, onde, em Abril, se deslocou na companhia de António Ferro, que nesse ano seria afastado da política, cantando no Chez Carrère, que era a boîte mais chie de Paris.
Basta ver os jornais parisienses, o jorrar de elogios, a estranheza pela profundidade do canto, e a exaltação da sua beleza. Amália até dizia que foi preciso ir cantar a Paris para saber que era bonita, já que, por cá, só diziam que era muito magra ou que tinha uma boca muito grande. Paris iria apaixonar-se por Amália, tudo o indicava, era só dar tempo ao tempo. E o tempo chegaria em Abril de 1956.

Depois de Paris, onde a sua estreia foi filmada e incluída num Jornal de Actualidades, que estreou a 5 de Maio, no Condes, Amália acompanhou António Ferro, numa fugaz visita a Londres, ainda mergulhada na depressão do pós-guerra, onde cantou numa festa no Ritz, sem grande publicidade. Mas foi este o teste para se saber que Amália, que já triunfara no Brasil, em duas longas temporadas, agradava imenso em Espanha, onde cantava com frequência, e pontualmente passara por outros países, viria a ser uma grande cantora internacional.

Como tudo quanto a Amália dizia respeito era notícia, O Século Ilustrado, de 27 de Agosto, dedicava a capa e uma grande reportagem ao facto de Eduardo Malta, o pintor da alta sociedade, ter retratado Amália. Seria esse seu o retrato preferido, sempre em lugar de honra na grande sala da Rua de São Bento.

Mas não tardou que a revista Eva desse à estampa uma bisbilhotice, revelando que Malta pintara dois retratos, porque o primeiro fora logo comprado por um riquíssimo admirador, que pagara uma soma fabulosa. Toda a gente pensou num conhecido banqueiro, mas não, neste caso não acertaram, tratava-se de um outro muito rico e grande amigo, Abel de Lacerda, que morreu jovem, mas fundou um Museu no Caramulo, onde esse bonito retrato está exposto, apenas com o algo irónico título de Retrato de Senhora. Será que não sabem quem é aquela senhora?

Um facto que não teve publicidade nenhuma foi ser finalmente decretado, em 16 de Fevereiro, ao fim de sete anos de separação, o divórcio de Amália do grande amor da sua juventude. Chamava-se ele Francisco Pedro, de sobrenome da Cruz.

Mas então, onde cantava Amália em Portugal, antes de ir cantar uma vez por semana ao Casino Estoril? Pois cantava onde lhe dava na real gana, que toda a gente a queria ouvir cantar. Cantava no Café Luso, geralmente à sexta-feira, com bilhetes caros e casas à cunha, cantava em festas de caridade, no Coliseu ou na Feira Popular, cantava no Combóio das Seis Meia, no Politeama, com bilhetes muito baratos.

E depois de actuar nos sítios onde era contratada, Amália, que gostava verdadeiramente de cantar, nunca deixava de dar um salto aos restaurantes do Bairro Alto, de que eram proprietários seus dois grandes amigos, a Adega Mesquita e a Adega Machado, onde, muitas vezes, já com a porta fechada, cantava até altas horas.

Já agora, não posso acabar este ano amalista de 1949, sem referir que, em 15 de Outubro, Amália foi a Alcochete, cantar numa festa a favor do Aposento do Barreto Verde, uma coisa que o meu Pai, que era alcochetano, inventou e para a qual convidou a Amália, que era amiga de longa data e logo aceitou. Amália assistiu à tourada, onde o cavaleiro Manuel Conde lhe ofereceu a sorte e teve uma actuação monumental. Depois, atravessou a vila, numa charrete, ao lado de um grande amigo, o velho actor Nascimento Fernandes, até ao barracão todo decorado, onde se realizou um grande jantar, e a Amália cantou até sabe Deus que horas, que todo o tempo que ela cantava parecia sempre pouco. Entretanto, Linhares Barbosa, o grande poeta do fado, vendia um folheto com os versos seus que Amália cantava, que ela depois autografava. E eu tinha doze anos, e estava lá e tive a sorte de a ouvir cantar mais uma vez. Talvez não valesse a pena contar esta história, mas se não houvesse na minha vida histórias destas, não estava eu para aqui a escrever sobre a Amália.

Mas agora vamos então ao Estoril, à chamada Costa do Sol, que englobava o Estoril, o Monte Estoril e Cascais, e que era, desde há muito, a zona chic de veraneio lisboeta, onde a Família Real e a Corte costumavam estacionar por meados de Setembro, depois dos rigores do Verão passados em Sintra. O Rei e a Rainha na cidadela de Cascais, a Rainha-Mãe, Maria Pia, no seu chalet, no Monte.

Depois de 1910, mesmo acabada a Monarquia e implantada a República, a nobreza nunca deixou de por ali veranear. E chegada a II Grande Guerra, tendo Salazar mantido a neutralidade portuguesa, o Estoril tornou-se muito apetecível para estrangeiros fugidos aos horrores da guerra, judeus perseguidos, alguns muito ricos, anglófilos combativos, nazis desalmados, espiões astuciosos, aventureiras picantes. Enfim, um mar de gente.
Se muitos refugiados vinham à espera de uma passagem para a América, se como Ingrid Bergman e Paul Henreid voavam de Casablanca rumo à liberdade que os Estados Unidos lhes oferecia, outros queriam ficar em Lisboa ou no Estoril, onde as refugiadas louras criaram um clima fervilhante de ousadia, mulheres que fumavam na rua, usando calças ou saias muito curtas, de dia, a tomar um refresco ao sol, na Praia do Tamariz, e à noite, no Casino, com profundos decotes descobrindo o colo bronzeado, a tentar a sorte na roleta ou no baccara.

O Casino Estoril tornou-se de tal modo mítico que a Warner Brothers, procurando capitalizar o sucesso de Casablanca, produziu, em 1944, um filme chamado The Conspirators, com a super-bonita Hedy Lamarr, Paul Henreid, Peter Lorre e muitos outros, passado em Lisboa, tendo, para as cenas culminantes, reconstituído, nos estúdios de Hollywood, o Casino Estoril e a sua fauna inquietante. Maior fama não podia haver. Mas a fita não deve ter agradado muito à censura vigente, porque, ao que sei, nunca foi exibida em Portugal.

Em 1949, quando Amália Rodrigues cantou, pela primeira vez no Casino Estoril, a guerra acabara há apenas quatro anos, mas a Costa do Sol tinha um outro atractivo, para além deste cosmopolitismo, era seguramente o local do planeta onde mais pessoas reais se podiam encontrar por metro quadrado.

Eram muitos, mas quem dava mais nas vistas era Umberto II di Savoia, que fora Rei de Itália escassos meses, perdendo o trono, em 1946, por um referendo que preferiu a República. Comandava pela sua bela figura, pelos olhos faiscantes, pelo seu conhecido bom gosto. E, com ele, a família au complet, a mulher, a rainha Maria José, que era uma princesa belga e se chamava assim, tal qual, por ter uma avó portuguesa, o pequeno príncipe Vittorio Emmanuel e as três princesas. Habitavam a Villa Italia, que lhes foi oferecida pelos monárquicos do seu país.

E havia a simpática rainha da Bulgária, Giovanna, irmã do rei Umberto, com o seu filho, o muito jovem rei Simeão, deposto por Hitler, e que hoje, quem em tal então acreditaria, é primeiro-ministro do país de que foi rei em menino.

Com alguma sorte, podia deparar-se com a figura majestosa da última rainha de Espanha, Victoria Eugénia, viúva de Alfonso XIII, que consubstanciava toda a grande realeza europeia, neta da rainha Vitória de Inglaterra, afilhada de Eugénie de Montijo, imperatriz dos franceses. E se o seu filho, o imponente Conde de Barcelona, Don Juan de Borbón, pretendente ao trono espanhol, era muito simpático e discreto, quem não podia passar despercebido era o seu neto mais velho, um rapaz muito alto e desportivo, a quem os íntimos chamavam Juanito, que falava tão bem português como eu, e havia de ser, aquilo que é hoje, o excelente rei Juan Carlos I, de Espanha. A sua casa chamava-se La Giralda.
Mas havia mais, muito mais, havia o sempre recolhido rei Carol da Roménia, acompanhado da sua maquiavélica amante, Madame Lupescu, conhecida pela Pompadour do Leste, que o fez perder duas vezes o trono. Ambos morreram no Estoril. E havia também o muito reservado arquiduque Otto de Habsburgo, pretendente ao trono imperial da Aústria, com os seus numerosos filhos.

E muitos mais havia, mas, para terminar em beleza, apetece-me lembrar uma das mulheres mais belas que já vi, a Condessa de Paris, Isabelle de Orleans e Bragança, Princesa do Brasil, casada com o pretendente ao trono de França. Essa mulher lindíssima, mãe de numerosa prole, irmã da mãe do actual Duque de Bragança, que viveu muito tempo em Sintra, tendo morrido em Julho passado, aos 92 anos, era um deslumbramento de beleza aliada à mais subtil elegância, muito branca, com o seu cabelo apanhado ao alto, com um charme verdadeiramente real. Em 1989, aceitou com muita amabilidade o convite para fazer parte da Comissão de Honra das celebrações dos 50 anos de vida artística de Amália Rodrigues, de quem era amiga.

À volta desta realeza, movimentava-se alguma antiga nobreza portuguesa, mais ou menos falida, alta burguesia, desejosa de promoção social, e a alta finança, da qual era figura de proa o banqueiro Ricardo Espírito Santo Silva, tão famoso no "grand monde" como nos meios teatrais, requintado coleccionador de artes decorativas e mulheres igualmente decorativas, fundador de um museu que tem o seu nome, e cuja intuição artística lhe permitiu pressentir que aquela rapariga bonita, chamada Amália, que cantava o fado com tanta alma no palco do Teatro Apoio, era muito mais do que isso, era futuramente uma enorme figura da Cultura portuguesa do século XX. A tão comentada e tão forte amizade entre ambos, durou até à morte dele, ocorrida em 1955.

Quanto à sociedade real do Estoril, teve o seu ponto mais alto em Fevereiro de 1955, quando Umberto II casou ali a sua filha mais velha, Maria Pia, que lembrava no nome a sua tia bisavó, que fora Rainha de Portugal. Foi um acontecimento mundano a nível internacional. Faiscaram as grandes jóias dos tesouros familiares que se julgavam perdidos, ergueram-se sobre os penteados os diademas mais opulentos, desfilaram os vestidos dos grandes costureiros. Esplendorosa estava a Duquesa de Kent, a muito bela princesa Marina da Grécia, tia da rainha Isabel II, e, mais do que certo, estava vestida chez Christian Dior.

Mas havia uma mulher portuguesa muito loura, de feições muito delicadas, com uma elegância rica e imaginativa, que tinha uma allure de pessoa real. Era Maria Amélia Pitta e Cunha, mulher do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Cunha, que dava brado nos países por onde passava em viagens de Estado, e declarava, com orgulho, que se vestia sempre em Lisboa, na Casa Bobone. E se a curiosidade era maior, confessava que o seu perfume predilecto era Narcisse Noir. Foi uma mulher que marcou uma época pela sua simpatia e janotismo.

E, pelo meio de toda esta aristocracia, circulava Amália, também convidada para a sumptuosa recepção que teve lugar na véspera do casamento, no Grande Hotel do Estoril, vestida de negro, com aquele seu porte de grã-duqueza que só existe no povo e na alta nobreza, o qual, por muito que tente imitá-lo, nunca o consegue a burguesia.
Pois a partir de 1949, a relação de Amália e o Casino Estoril, a grande amizade com o seu empresário Teodoro dos Santos, mostrou-se inquebrantável. Desde há muito que a aristocracia adorava Amália, a começar pelos portugueses, e com destaque para Umberto de Itália, que corria a ouvi-la no Luso e no Coliseu. Mas o Casino tornou-se em mais um palco privilegiado para a sua grande arte, para a sua requintada elegância. E Amália, que nunca pertenceu a classe nenhuma mas a todos tocava, ficava bem com o champagne, com os smokings de corte impecável e os vestidos compridos, muito rodados do new look. Esse público muito interessado, semeado de estrangeiros cultos e conhecedores, que adoravam ouvir Amália, adivinhou-lhe a universalidade talvez primeiro que qualquer outro em Portugal.

Comentava-se que Amália ganhava, no Casino, a soma fabulosa de quinze contos de réis, por actuação. Pois se tal lhe pagavam, é porque sabiam que com Amália a sala estava sempre a transbordar e tinham nela uma artista que dava ao Casino um prestígio imenso.

E não se pense que era só gente rica que lá ia ouvir Amália. Havia também muitos amalistas menos endinheirados, que mal ela acabava de cantar, por volta das duas da manhã, desciam apressadamente a alameda do Parque, rumo à estação, para apanharem o último combóio para Lisboa. Mal sabiam eles o que perdiam, porque se Amália estava em noite de boa disposição, cantava, por prazer, no Wonder Bar, até de madrugada.

A partir de certa altura, Amália tornou uma tradição cantar no Casino Estoril, na noite de fim de ano. Dizia ela que dava sorte entrar o ano a trabalhar, e, ainda que estivesse longe, fazia tudo para que cada ano começasse no Estoril.

Pois agora é a vez de Amália, o musical, prosseguindo a sua peregrinação longa de mais de três anos, aportar ao Casino Estoril, e por lá se demorar pelo menos até ao reveillon, como Amália gostaria.

Mudam-se os artistas mas não se mudam as vontades, pelo menos a vontade do público. O espectáculo prossegue. O grande musical erguido por Filipe La Féria não vem revelar nenhuma nova Amália, todos o sabemos, mas vem permitir que, na sala de um teatro, o público em conjunto celebre Amália, recorde as suas cantigas, se emocione com as suas alegrias e tristezas, sinta pairar, por momentos, um pouco da sua alma, e no final, lhe dê palmas, muitas, muitas palmas.

Vitor Pavão dos Santos



Ficha Técnica

Texto / Encenação / Cenografia: Filipe La Féria

Segundo a Biografia de: Vítor Pavão dos Santos

Produção: Bastidores Produções Artísticas, Irene de Sousa, Alberto Villar

Figurinos: João Rolo / Filipe La Féria

Director Vocal: António Leal

Desenho de Luzes: Fernando Fareleira

Operador: Paul Tucker

Desenho de Som: Felício Fialho Hugo, Edgar Silva

Realização de Vídeo: Frederico Corado, IDN

Montagem: Manuel Victória

Chefe Técnico:
José Manuel Marques

Contra-Regra: Rosário Balbi, Pedro Paiva

Pessoal de Sala: Fernando Mendes, Hugo Oliveira, Daniel Felix

Bilheteira: Rosa Sousa, Maria José Peres

Cabeleireira: Eugénia Ramos

Guarda Roupa: Mestra: Helena Brandão; Auxiliares: Catita Soares Helena Resende / Joana Correia

Músicos: Mário Rui, José Carvalhinho, Paulo Feiteira, Frederico Gato, João Núncio, José Braga, Arménio de Melo, César Medeiros

Director de vozes: Carlos Ançã

Director de Guitarras: José Carvalhinho

Elenco

Alexandra, Luisa Basto, Carlos Quintas, Henrique Feist, Mariema, Noémia Costa, Francisco Sobral, Jorge Sousa Costa, Rocha Santos, Helena Rocha, Rosa Areia, Isabel Balbi, Joel Branco, Carlos Veríssimo, Lana, Isabel Noronha, António José Zambujo, Nuno Guerreiro, Paula Marcelo, Paulo Vasco, Ricardo Spínola, Tiago Sepúlveda, João Henriques

As Crianças: Marline Costa, Patrícia Resende, Alexandre Carvalho, Ana Balbi, Ana Catarina Santos, Gonçalo Carvalho, Gustavo Gaspar, João Prim, Luis Silva, Sara Campina, Ana Rita

Coro: Ana Nobre, Carla Pires, David Ventura, Filipa Batista, Hugo Pinto, Rafael Rodrigues, Joana Correia, Joana França, Luis Mateus, Marcela Freitas, Margarida Matos, Yola Dinis, Carla Lourenço, Ricardo Castro, Tiago Diogo

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