My Fair Lady - Minha Linda Senhora
Teatro Politeama | Dez.2002
Coliseu Porto | Jun.2004
Pigmalião, de Bernard Shaw, e My Fair Lady, a sua versão musical, de Frederick Loewe e Alan Jay Lerner, é provavelmente uma das histórias mais vezes levadas aos palcos e ao cinema, em todo o mundo. Na memória de quase todos os espectadores está o filme de George Cukor, com os oscarizados Audrey Hepburn e Rex Harrison, nessa dupla espantosa formada pela desbocada vendedora de flores Eliza Doolittle, que mal articula uma frase num inglês compreensível e o rigoroso e exigente professor de inglês, Higgins.
My Fair Lady é um desafio gigantesco, com os seus cenários sumptuosos, a diversidade das coreografias, a subtileza das interpretações, mas simultaneamente extremamente sedutor para qualquer encenador de musicais e muitas versões de enorme qualidade têm subido aos palcos em todo o mundo.

Em Portugal, coube a Filipe La Féria enfrentar o desafio de levar ao palco do Teatro Politeama o grande musical "My Fair Lady", num cenário deslumbrante de bom gosto e criatividade, do próprio Filipe La Féria, com figurinos de Vitor Pavão dos Santos, referência também mítica do Teatro Português. Quem brilhou como a jovem florista de rua que, por aposta do excêntrico Professor e do seu amigo Coronel Pickering, há-de deslumbrar num baile da sociedade, foram Anabela e Sofia Duarte Silva. Carlos Quintas cumpriu com rigor o exigente papel de Higgins, acompanhado por um elenco impressionante, que contou com as presenças de, entre outros bailarinos e cantores.
My Fair Lady: "O Musical Mais Que Perfeito"
Na noite de 15 de Março de 1956, as mil e uma luzes da Broadway brilharam com um desmedido fulgor, a multidão imensa que costuma fervilhar a partir de Times Square para as ruas onde se acotovelam os teatros, tornou-se densíssima à volta do Mark Hellinger Theatre, onde se estreava um novo musical, que vinha precedido de uma enorme fama, alcançada em New Haven e Filadélfia, cidades onde fizera a sua rodagem.
Era um musical em tudo diferente de todos quantos até então se tinham visto, a que os seus autores, julgando-se com pouca imaginação, tinham dado o nome imortal de My Fair Lady.
E todas as expectativas foram excedidas. My Fair Lady agradou tanto que se tornou uma moda, uma loucura, as melodias das suas cantigas rapidamente saindo para a rua. Na Eliza Doolittle, uma rapariga inglesa de dezanove anos, quase desconhecida, chamada Julie Andrews, tornou-se famosa da noite para o dia; Rex Harrison, um actor inglês de grande reputação para quem o papel de Higgins foi escrito, disse maravilhosamente na música; Stanley Holloway, um veterano do music-hall inglês, deu vida ao filósofo varredor de ruas Doolittle. Outros grandes trunfos do espectáculo eram a encenação do americano Moss Hart, os cenários de outro americano, Oliver Smith, e o guarda-roupa do inglês Cecil Beaton, fotógrafo, escritor, desenhador, que recriou a moda dos anos 10 e influenciou a moda de Paris logo na saison seguinte.
Quando chegou a hora da verdade, ou seja, a noite dos Tonys, o prémio máximo do teatro americano, My Fair Lady arrebatou sete dos maiores, melhor musical, melhor actor, melhor encenador, melhores cenários, melhores figurinos, e por aí fora.
Depois, tanto o público queria ver My Fair Lady, tão difíci1 se tornou conseguir um bilhete, que o espectáculo ficou, sempre no mesmo teatro, durante seis anos e meio, num total de 2.717 representações, sucedendo-se os elencos, batendo todos os recordes até então estabelecidos. Coisa também nunca vista, o disco com as canções do espectáculo, cantadas pelos seus criadores, ficou 311 semanas no hit parade, 15 em número um.
Entretanto, Londres ansiava por ver My Fair Lady, o que aconteceu em 1958, no Drury Lane Theatre Royal, com os três protagonistas da Broadway, a encenação e a montagem originais, palco onde ficou cinco anos e meio, contando 2.281 representações.
Rapidamente, a música e a magia de My Fair Lady começaram a inundar os palcos de todo o mundo, até que a Warner Brothers comprou, por um preço nunca antes pago, os direitos para o cinema, tentando reproduzir, em Hollywood, o espectáculo teatral quase que cena a cena. Nos protagonistas, depois de muitas dúvidas, Rex Harrison e Stanley Holloway repetiram as suas criações teatrais, enquanto, supremo sacrilégio, Julie Andrews, que não iniciara ainda a sua fulgurante carreira cinematográfica, foi impedida de deixar para a posteridade a sua grande interpretação, sendo substituída por uma estrela com peso na bilheteira, Audrey Hepburn, maravilhosa é certo, mas actriz limitada e que nem sequer cantava, sendo Marni Nixon quem lhe emprestou a voz.
Estreado em 1964, My Fair Lady tornou-se logo um filme popularíssimo, arrecadando oito Oscars, entre eles o de melhor filme, melhor actor, melhor realizador, dois para Cecil Beaton. E no entanto, na noite da entrega dos Oscars, fez-se uma pequena justiça, pois Audrey Hepburn nem nomeada foi, por cantar com voz alheia, enquanto Julie Andrews, com o seu filme de estreia, Mary Poppins, foi considerada a melhor actriz do ano, o que, no entanto, de modo algum compensa não podermos ver hoje, no cinema, a sua Eliza Doolittle.
Com o esplendor do GinemaScope e a beleza triunfante da sua música, My Fair Lady tornou-se o filme favorito de várias gerações de espectadores, em nada, no entanto, correspondendo à sensação que é ver o musical no meio para o qual foi criado, o teatro.
Por isso, My Fair Lady é, talvez, o musical mais incessantemente reposto nos palcos de todo o mundo. Por isso, quem viajar até Londres, ou Madrid, ou Budapeste, ou Milão, ou Tóquio, ou tantas outras cidades, pode assistir a My Fair Lady. Por isso, era urgente que My Fair Lady, que foi o grande sonho nunca realizado de Laura Alves, pudesse ser, até que enfim, visto pelo público português.
Mas afinal, o que será que torna My Fair Lady um musical tão especial? Talvez a estranheza da história que conta, a qual dá lugar a grandes interpretações, talvez a variedade e a beleza da música que o envolve. Talvez a sábia mistura de todos estes elementos.
Já agora, talvez valha a pequena saber mais alguma coisa sobre My Fair Lady.
Primeiro que tudo, falar de George Bernard Shaw (1856-1950), um dos dramaturgos mais importantes do século XX. Nascido na Irlanda, G.B.S., como também era conhecido, teve, de início, dificuldade em fazer aceitar, nos teatros londrinos, as suas peças, tão surpreendentemente diferentes, por onde circulavam as suas ideias demolidoras face à sociedade inglesa, o seu muito peculiar socialismo que defrontava a bem estabelecida diferença das classes sociais e o snobismo que as mantinha, a sua intransigente defesa dos direitos da mulher, tudo isto posto no palco com uma inteligência deslumbrante.
Pelas suas atitudes perante a vida, Shaw tomou o estatuto de homem inacessível, egocêntrico, excêntrico, tudo coisas que ele adorava e cultivava, como a sua barba longa, o seu bigode retorcido, o seu humor mais cortante que o fio de uma navalha de barba.
Quanto ao amor, Shaw considerava que o supremo prazer se conseguia sobretudo por carta. Assim, em 1912, aos 56 anos, apaixonou-se perdidamente por Mrs. Patrick Gampbell, uma actriz famosíssima, então nos 47, com quem manteve uma ligação amoroso-epistolar, que durou quase até à morte dela, ocorrida em 1940.
Esta Mrs. Patrick Campbell, Mrs. Pat para os amigos, era uma mulher inteligente e altiva, com uma enorme corte de admiradores, uma actriz com popularidade e prestígio em ambos os lados do Atlântico, ou seja Londres e Nova Iorque.
Segundo o próprio G. B. S., o desejo de escrever uma peça para Mrs. Pat surgiu, quinze anos antes de Pygmalion, quando, assistindo a uma representação de Hamlet, vendo-a na doce Ofélia, imaginou como seria aquela actriz tão fina numa personagem completamente diferente, uma vendedora de rua, de avental e chapéu com plumas de avestruz espetadas.
Não admira, portanto, que Shaw, que pretendia demonstrar a Mrs. Pat que era capaz de a manipular pelo menos no palco, fosse buscar o tema a uma certa lenda grega contada pelo poeta romano Ovídio, nas suas Metamorfoses. A lenda de Pigmalião, um escultor que cria uma estátua de mulher de tal beleza, Galatea, que por ela se apaixona, pedindo aos deuses que a tornem humana, e, sendo a prece atendida, tudo acaba bem.
Para Shaw, que considerou toda a vida que os ingleses assassinavam impiedosamente a sua língua, a Galatea é Eliza Doolittle, uma humilde e inculta, embora inteligente, vendedora de flores do mercado de Covent Garden, a quem o novo Pigmalião, Henry Higgins, um professor de fonética, perito em sotaques, ensina a falar correctamente, fazendo-a passar por uma duquesa, num baile de embaixada. E assim, todos os sagrados valores da educação das altas classes eram subvertidos, pelo simples uso da fonética.
Mas Shaw, sempre contra o sentimentalismo, recusou um final feliz à história. Pela sua dicção perfeita, Eliza torna-se também uma mulher independente, abandonando Higgins, que fica contente com a sua obra, embora um pouco desamparado.
Em 1914, quando Pygmalion se estreou em Londres, Mrs. Patrick Campbell teve um sucesso enorme na Eliza, sucesso que repetiu, nesse mesmo ano, em Nova Iorque, causando certo escândalo, não o tema escaldante da peça, mas a reprodução da linguagem das classes baixas num teatro chie. No futuro, Pygmalion tornar-se-ia na obra mais representada e conhecida de Shaw.
Com a idade avançando, G.B.S. tornou-se cada vez menos sociável e mais recluso, detestando a ideia das suas peças serem adaptadas ao cinema. Até que um dia, sem mais nem menos, lhe apareceu em casa o poderoso produtor e realizador cinematográfico Gabriel Pascal, um dos famosos húngaros que então dominavam o cinema inglês. Shaw simpatizou com a seu ar sincero, e deu-lhe o exclusivo para passar ao cinema todas as suas peças.
Deste encontro iria nascer, em 1938, um filme magnífico, Pygmalion, para o qual Shaw, em colaboração com Pascal, escreveu o argumento, introduzindo cenas novas, cheias de encanto, que ligam os cinco actos da peça, como as lições em que Higgins vai transformando a pronúncia de Eliza, a festa da embaixada em que ela triunfa, conquistando até a atenção de uma imaginária rainha da Transilvânia, condescendendo mesmo num final que fazia crer que professor e aluna ficavam juntos. Leslie Howard, o célebre actor inglês do teatro e do cinema, o Ashley de E Tudo O Vento Levou, também ele filho de húngaros, deu vida a um Henry Higgins em tudo perfeito, desde o modo de falar até à ausência total de sentimentalismo, uma interpretação ainda hoje inultrapassável. Como inultrapassável é Wendy Hiller, acertando em cheio no modo de desenhar as duas Elizas, antes e depois da rápida metamorfose.
O filme foi um sucesso, sendo o Oscar de melhor argumento atribuído a Bernard Shaw, o que deve tê-lo divertido bastante, talvez mais até que quando, em 1925, lhe deram o Nobel da Literatura, um prémio que, já então, andava um pouco desconsiderado.
Pascal teve então a ideia de transformar Pygmalion num musical, mas Shaw não estava de acordo. Porém, 1950, após a sua morte, Pascal resolveu concretizar a ideia, dirigindo-se a uma famosa dupla da Broadway: Alan Jay Lerner e Frederick Loewe.
Alan Jay Lerner (1918-1986), nascido em Nova Iorque, estudou em universidades americanas e inglesas. Foi um dos raros autores das letras das canções que, usando ideias originais ou adaptações, também escrevia o texto falado, o chamado book do musical.
Em 1942, encontrou Frederick Loewe (1901-1988), um músico austríaco que emigrara para os Estados Unidos em 1924, onde teve várias profissões, de pugilista a pianista de bar, e se iria revelar um dos compositores mais inspirados do século XX.
No início da carreira, Lerner k Loewe tiveram dois bons êxitos, Brigadoon (1947) e Paint Your Wagon (1951). Entretanto, Lerner faria também carreira em Hollywood, como argumentista, ganhando um Oscar com o célebre Um Americano Em Paris (1951).
E chegou então a vez de Pygmalion, uma peça passada entre quatro paredes, que pareciam impossíveis de derrubar, se transformar em M Fair Lady. Lerner, usando a excelente adaptação cinematográfica, fez uma obra notável e altamente inovadora, que é um marco na história do musical americano, mantendo intacto o pensamento de Shaw e muito do seu diálogo, criando cenas novas com a maravilhosa cena de Ascot, com a sua memorável Gavotte, fazendo que cada canção não só dê a conhecer o carácter das personagens, como exprima o seu estado de espírito, avançando a acção.
A música de Loewe, em que as melodias de Viena ressoam triunfantes, e a sua perfeita sintonia com as palavras de Lerner, deram origem a um conjunto prodigioso de canções, desde baladas românticas como On The Street Where You Live e I Could Have Banced All Xight, que revela os sentimentos ocultos de Eliza em relação a Higgins, ambas logo se transformando em tremendos sucessos, como enérgicos e bem humorados hinos à vida,
Wouldn't It Be Loverly e as duas canções de Doolittle, With a Little Bit O' Luck e Get Me To The Church On Time, ou ainda o delicioso Show Me, em: que Eliza, farta de palavras, quer alguma acção. Quanto às canções de Higgins são maravilhas de humor e elegância, dando a conhecer várias facetas da personagem, revelando o bom conhecimento que Lerner, que casou oito vezes, tinha do sexo oposto, acabando pela revelação a si próprio do amor por Eliza, em I've Grown Accostumed to Her Face, uma das mais belas canções jamais escritas. E todas se integrando na acção do musical e só nele inteiramente se compreendendo.
Por tudo isto, há muito quem diga que My Fair Lady é o musical perfeito, e com mais canções famosas do que qualquer outro, já que todas são famosas.
Entre as canções que os autores deitaram fora, estão The Day They Invented Champagne e Say A Prayer, que logo incorporaram em Gigi, o filme que escreveram em 1958. Pois nesta versão portuguesa, ambas as canções voltaram ao seu musical de origem.
Resta agora dizer que Lerner & Loewe nunca mais repetiram no teatro este sucesso superfabuloso, apesar do êxito de Camelot (1960). O filme Gigi ganhou nove Oscars, sendo considerado o último grandes musicais do cinema, mas não resistiu quando, em 1973, os autores fizeram uma adaptação teatral.
A ópera, o dramma per musica, a que Claudio Monteverdi deu forma no início do século XVII, teve a sua expressão mais avassaladora na Itália do século XIX, moldando-se através de compositores geniais. O primeiro de todos Gioacchino Rossini, seguido de Gaetano Bonizetti e Vicenzo Bellini, culminando em Giuseppe Verdi, o imenso. Em 1926, com a estreia em Milão, no Teatro alia Scala, de Turandot, a obra-prima inacabada de Giacomo Puccini, o último dos grandes, que morrera dois anos antes, parecia que, com ele, tinha morrido a arte de exprimir, através da música, a vida em cena.
E, no entanto, logo no ano seguinte, em 1927, em Nova Iorque, no Ziegfeld Theatre, com a estreia de Show Boat, com música de Jerome Kern, tornava forma o dramma per musica do século XX. Numa avalanche tão gloriosa como a italiana do século anterior, a vida vibrava no palco com a música de Kern, Gole Porter, Irving Berlin, George Gershwin, Richard Rodgers. À volta destes geniais big five, surgiram grandes músicos, dos quais o maior é, sem dúvida, Frederick Loewe. Aqui está My Fair Lady, para tudo isto confirmar.
"Não sei quando me apaixonei por My Fair Lady"
Não sei quando me apaixonei por My Fair Lady. Há muitos anos vi o filme de Gabriel Pascal e foi por ter gostado muito do Pigmalião que comecei a conhecer esse cínico e genial Bernard Shaw. Lembro-me também de ler o anúncio no Teatro Monumental de My Fair Lady, com Laura Alves e João Villaret. Foi um sonho nunca concretizado da grande actriz, que teria tido todo o talento para fazer a sua inesquecível Elisa Doolittle. Mais tarde vi várias vezes, também no Monumental mas no cinema, a célebre versão de George Cukor, com Audrey Hepburn e Rex Harrison. Só muitos anos depois, em Londres, assisti à primeira produção de Cameron Mackintosh. O romantismo, o saudosismo, o optimismo cockney são o património maravilhoso da música de Frederick Loewe que combina tantos estilos, numa simbiose única, com o rigor e a invenção dos poemas de Alan Jay Lerner.
Traduzir e adaptar para português My Fair Lady foi um trabalho que me deu, a mim e a Helena Rocha, um grande prazer, pois tivemos que pacientemente achar a correspondência entre o cockney e a gíria alfacinha. Havia várias traduções de Pigmalião, uma de António Lopes e outra - que só conheci depois de ter terminado o trabalho - de Luís Francisco Rebelo e José Palma e Carmo. Porém, My Fair Lady afasta-se e reinventa a peça que Shaw criou por sua vez a partir do conto mítico de Ovídio, fazendo do seu protagonista, o austero professor Higgins, o seu próprio auto-retrato. No Adorável Mentiroso, que tão bem Eunice Muñoz e Jacinto Ramos interpretaram entre nós, assistimos a toda a vingança de Shaw, perante o amor não correspondido da célebre actriz Patrick Campell, para quem escreveu Pigmalião. Porém, o musical é menos estático que a peça de Shaw, que coloca a acção mais significativa fora de cena. Se Pigmalião é um conjunto de ideias cómicas e teatrais brilhantes, My Fair Lady é uma obra-prima, investigando as possibilidades e os conteúdos temáticos e musicais com um rigor de análise surpreendente e pondo no centro do palco a metáfora da linguagem como luta de classes e das suas metamorfoses. Assim vemos Doolittle, o varredor de ruas, transformar-se num respeitável membro da classe média; Elisa transforma-se numa mulher nova e independente e o professor Higgins, cronicamente incapaz de exprimir os seus sentimentos às outras pessoas, transforma-se também num ser humano emocionalmente mais completo.
O espaço cénico de My Fair Lady foi também um grande desafio, pois decidi afastar-me dos cenários operáticos das versões londrinas e madrilenas, e transfigurá-lo num espaço inspirado na própria estrutura de Covent Garden, também ele agora já metamorfoseado em atracção turística. Para os figurinos desafiei Vitor Pavão dos Santos, referência também mítica do Teatro Português, e com actores e colaboradores maravilhosos mergulhei, com loucura e ansiedade, neste novo sonho.
Felizmente pude ter toda a liberdade na encenação desta My Fair Lady. Será a Minha Linda Senhora menos académica que a original, mais acre e divertida, com a ironia e as preocupações sociais de Shaw sublinhadas a vermelho. Ao pô-lo em cena em português, estamos também a falar de Portugal, dos nossos ricos, dos nossos pobres, e dos falsos ricos que querem passar por ricos esquecendo-se de que pela boca morre o peixe...
My Fair Lady é talvez o espectáculo mais ambicioso que dirigi pela complexidade de disciplinas que o próprio espectáculo exige. Tive colaboradores espantosos e apaixonadíssimos que por este espectáculo deram parte das suas vidas.
My Fair Lady é uma história de amor.
Filipe La Féria