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Rosa Tatuada
Teatro Politeama | 1999/2000

CartazO autor chamou-lhe uma "peça de amor para o mundo". Trata-se de "A Rosa Tatuada", de Tennessee Williams. Neste palco, Filipe La Féria dirigiu um elenco de 17 actores, dos quais se destacam, nos papéis principais, Rita Ribeiro, João Baião e Maria Vieira.
Este notável texto de Tennessee Williams conta-nos como, numa comunidade de Sicilianos radicados nos EUA, um simples e ingénuo camionista (João Baião) se apaixona por uma italiana fogosa e explosiva - Serafina Delle Rose (Rita Ribeiro) - chegando ao ponto de, por ela, tatuar uma rosa no peito.






Uma Poética dos Sentidos

A memória das emoções. Do fascínio do teatral. Das personagens desmesuradas. De seres humanos-animais perdidos debatendo-se batendo-se convulsamente numa luta vã mas nobre. Abordar os textos pelo lado mais onírico, menos realista. Procurar um clima interior. A sombra ou a luz de Tchekov. Buscar a expressão mais eficaz à passagem da poesia. Fundamental o prazer de ouvir um texto, sentir a sua respiração, o seu ritmo.

Deixar instalar a melancolia do paraíso utópico. O sonho. Sobretudo apelar aos sentidos. Ao prazer suave mas penetrante da poesia dos sentidos. Das cores. Dos sons. Dos gestos. Entender a loucura como a sensibilidade última, violenta, desesperada, verdadeiramente lúcida, Com-paixão pelas personagens. Nossos irmãos porque amamos neles a imagem da ilusão irremediavelmente perdida.
A memória de Tennessee Williams ou da sua descoberta prende-se com a própria memória da paixão pelo teatro, pelo actor. Pelas personagens. Blanche DuBois, Alexandra Del Lago, Alma, Catherine... Por actores fabulosos. Vivien Leigh, Geraldine Page, Marlon Brando, sobretudo Katharine Hepburn ... My son, Sebastian...
No tempo e no espaço viajarão, deambularão as personagens das crianças - Tom e Willie - à procura das imagens, dos momentos passados e futuros, do pulsar do sangue nas ocasiões únicas, lá, onde estivemos, onde vivemos ainda, sentimos ainda, chorámos ainda. Lá, onde nascemos. Onde fomos testemunhas e protagonistas. Actor e público. Lá, onde começámos a morrer. - Um pouco. Aos poucos.
Da solidão mais profunda nos fala este homem, da que reside na incapacidade de amar, no cansaço mais definitivo, mais interior. Da beleza da vida nos fala este homem, nessa força ainda que faz resistir apesar de, mesmo que, contra a inevitabilidade da morte. A beleza da sobrevivência.
São vencedores ou vencidos os seus anti-heróis? São sobretudo lutadores. É isso que nos arrebata em Blanche, Berta, Willie. Elas sabem misteriosamente mas não querem saber, porque sabem. A memória depura, resta apenas o essencial, o fundamental, a educação ou a experiência desvanecem-se, são sombras, sons perdidos no longe. Permanecem os sentimentos, os sentidos. A beleza dos instintos. a pureza das emoções.
Geograficamente longe de um social que Williams não buscou muito, é o lado existencial dos seus conflitos, do seu drama, que mais nos toca e apaixona. Talvez por ser o mais universal, o mais enraízado no nosso peito, no negro das nossas noites mais escuras. No medo da morte. Na observação da passagem do tempo. No peso inexorável do ser. Destas motivações de ordem subjectiva tentamos dar testemunho, dar passagem através de um código de sinais que está na génese do trabalho teatral.
Mas sobretudo gostávamos de compartilhar este prazer de redescobrir a beleza destes textos de amor. Foi assim que os entendemos. Com textos de amor.

Carlos Fernando
Encenador de três espectáculos de Tennessee Williams no Teatro da Graça


A História

"Rosa Tatuada" estreou-se na Broadway, a 3 de Setembro de 1951. Quatro anos mais tarde, dirigida por Daniel Mann, seria levada ao cinema com Arma Magnani interpretando, de uma forma notável até para o seu exigente autor, a viúva Serafina Delle Rose. Aliás a temperamental actriz italiana, uma dos que Tennessee Williams mais admirava, tornar-se-ia rapidamente sua amiga e companheira nas noites de Roma e uma espécie de alter-ego da sua personagem no filme. Que lhe valeria um Oscar, nesse ano, o primeiro a ser atribuído a uma actriz de origem não anglo-saxónica.

Tennessee Williams, habitualmente tão critico e insatisfeito com as adaptações ao cinema das suas peças de teatro (detesta, e di-lo tia sua "Autobiografia", a tão celebrada direcção de Joseph L. Mankiewikz de "Bruscamente no Verão Passado hoje considerada um clássico da Sétima Arte), ficaria plenamente satisfeito com essa "Rosa Tatuada" cinematográfica. O que apenas aconteceu com outras duas transposições de obras suas para o ecrã, casos de "Um Eléctrico chamado Desejo" (1951) com Marlon Brando, Vivian Leigh e a realização do seu amigo Elia Kazan e "A Última Primavera da Senhora Stone" (1961) também com Vívian Leigh, uma actriz que. juntamente com Brando, idolatrava, dirigida por um dos encenadores mais próximos, José Quimera, nitidamente uma película de menor importância.

"Rosa Tatuada" surpreenderia bastante os habituais espectadores de Tennessee Williams e todos o que seguiam, com atenção, a sua obra, pelo seu final optimista, uma feliz excepção no teatro céptico senão mesmo pessimista do seu autor.

Curiosamente, o autor explicava esta ultima característica de "Rosa Tatuada" como uma nova experiência, "um quebrar de barreiras". Outros motivos decerto haveriam como a relação estável e gratificante com França Merlo e a sua atracção por Itália quando aí esteve, pela primeira vez, em 1948. A vitalidade, extroversão, espontaneidade dos Italianos captivaram-no desde logo e marcaram um hiato no seu pessimismo em relação ã condição humana. São suas estas palavras "Os italianos são tão doces e simpáticas que arrisco, se continuar aqui, em me tornar um sentimentalista." ou ainda, "Penso que os italianos são como os nossos homens e mulheres dos E.U.A. mas sem as suas inibições. São poéticos mas sem a nossa repressão de cariz protestante. Ou pelo menos, se têm alguma, a sua vitalidade e tão forte que a apaga totalmente. Eles vivem com o coração. "Mas nem tudo eram rosas com esta mudança tão profunda que obstasse a que, pela mesma altura, Tennessee Williams mostrasse o reverso da moeda em "A Romântica Primavera da Senhora Stone" onde a sua protagonista Karen Stone, é a antítese da Serafina Delle Rose de 'Rosa Tatuada".

Nesta, existem duas figuras principais, uma a viúva, Serafina Delle Rose, que, após a morte do marido, se enclausura, na sua casa, morrendo para um mundo em que Rosa, a filha, surge como a única ponte com os outros e o seu ex-marido, Rosário, um homem que adorava com todas as suas forças, um "barão" Siciliano, símbolo de força, beleza e virilidade triunfantes. Curiosamente, à semelhança do que Lorca antes fez em "A Casa de Bernarda Alba" (1936), autor que Tennessee Williams tanto admirava, Rosário é uma personagem fundamental mas sempre ausente Todavia a sua sombra paira na casa em que a urna com as suas cinzas se encontra em lugar dominante ao lado da Madonna venerada por Serafina e onde a cama, onde celebravam cada noite os rituais de comunhão de um amor exacerbado, é vista pela viúva como um autêntico altar.

Se há um mito que preside a esta obra, plena de símbolos como todo o teatro de Tennessee Williams, é o de Díonisios, Deus da renovação da Natureza, da sucessão das estações, da fertilidade e do amor carnal, Quando Rosário morre, o mais cruel Inverno instala-se, na casa e no corpo de Serafìna como se o sol se apagasse e o dia se fizesse subitamente noite. Ficam apenas as recordações, as lembranças do passado, a celebração dos ritos funerários em sua memória e homenagem. Em que Serafina será a dedicada oficiante num catolicismo siciliano de veia popular onde a superstição e o paganismo se misturam num curioso sincretismo.

Quando, pela primeira vez, Álvaro Mangicavallo, camionista com um impressionante físico e extraordinariamente parecido com Rosário, lhe entra casa dentro, é Díonisios reencarnado que surge em todo o seu esplendor anunciado de um novo e mais feliz renascimento.
Mais ingénuo e menos corajoso que Rosário mais sensível e sentimental também (chora e comove-se com facilidade, o que não e vulgar num macho italiano), em Álvaro se inscrevem muitos dos sinais antes pertencentes a Rosário desde o soberto tronco que Serafìna tanto admira até a idêntica profissão e a rosa que faz, tatuar no peito para se parecer melhor com o ex-marido da mulher que ama e a quem entretanto faz a corte.

Que sã é possível porque, nesta altura, Serafina já sabe que Rosário não lhe foi fiel como antes pressupunha, O mito desfeito renova-se na figura deste novo Díonisios coroado de Rosas No corpo de Serafina, a Primavera sucede a um penoso e longo Inverno e a árvore saca que em dará flores e frutos (uma rosa surge de novo no seu peito, a rosa mística do amor fecundo) através da semente que Rosário aí deixou.

E chegamos assim ao fim de um ciclo em que o impulso da vida, e do amor carnal (Eros) vencerá a morte, a reclusão, o luto, a ausência (Thanatos). E Serafina poderá ser, outra vez, feliz, celebrando, cada noite, o corpo do homem amado, essa sensualidade e erotismo desinibidos tão mediterrânicos que aliás Tennessee Williams tanto admirava por oposição ao puritanismo hipócrita americano, fonte dos traumas, feridas e tragédias que são um tema constante e primordial do seu teatro. E que o recente escândalo Casa Branca/Mónica Lewinsky, com a sua corte de misérias, veio, mais uma vez, demonstrar.

Tito Lívio

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Ficha Técnica

Tradução, Encenação, cenografia e figurinos: Filipe La Féria

Dramaturgo: Tito Livio

Desenho de Luzes: Fernando Fareleira

Desenho de Som: Eduardo Cruz

Execução Cenográfica: LOUAL

Elenco

Rita Ribeiro (Serafins Delle Rose), Rocha Santos (Vagabundo), Gonçalo Lourenço (Bruno), Rodrigo Albernaz / João Filipe Martins (Salvatore), Jaqueline Pereira / Ana Balbi (Vivi), Verónica (Guiseppina), Rosa Areia (Peppina), Fátima Severino (Violeta), Ana Rita Inácio (Rosa Delle Rose), Helena Rocha (Assunta), Maria José Pascoal (Estelle Hohengarten), Maria Vieira (A Strega), Jorge Sousa Costa (Padre De Leo), Maria José Baião (Miss York), Carla Moreno (Bessie), Rosa Villa (Flora), Hugo Rendas (Jack Hunter), Félix Fontoura (Caixeiro-viajante), João Baião (Álvaro Mangiacavallo)

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